UmA cOiSa É uMa, OuTrA cOiSa É oUtRa


Quem tem dinheiro não tem tempo

Quem tem tempo não tem dinheiro

 

 

 

Já reparou naquela pinta atrás da orelha do seu filho? A empregada já. Se você é mãe e profissional, já deve ter vivido a seguinte cena: seu bebê dando tchau na hora em que você está saindo de casa, agarrado às pernas da Marizete. Ele só abre o berreiro no final de semana, quando ela vai pra casa. Se você é homem e pai, deve estar melhor preparado pra esses momentos. Até sente orgulho em saber que pode pagar a babá mais requisitada da agência. Entra no seu automóvel 4x4, liga o CD player e em cada farol pára pra pensar se vai encontrar seu moleque acordado quando voltar do trabalho. À noite, ainda no escritório e assoberbado de tarefas, se pergunta: o que eu estou fazendo aqui?

 

Uma vez questionada em uma entrevista sobre suas realizações pessoais, a jornalista Lillian Witte Fibe respondeu que gostaria de ter mais um filho. O entrevistador surpreendido quis saber o porquê, pois ela já tinha os seus. Disse a jornalista que se pudesse voltaria no tempo e abriria mais espaço em sua vida para a convivência com os filhos. E com uma pitada de rejeição declarou que eles já estavam grandes e não davam mais bola para ela. Que ela não os viu crescerem.

 

E a Marizete? Nem sabe por onde o filho dela anda durante a semana, enquanto quase dá de mamar para o seu. A despeito das diferenças sociais, você, a Marizete e a Lillian têm um algo importantíssimo em comum: venderam todo seu estoque de tempo. E a velha máxima “tempo é dinheiro” parece já não ter mais graça. Porque qualquer criança sabe que tempo é vida. Lembra, na infância, quando não tínhamos nada pra fazer? E fazíamos um montão de coisas. Brincávamos, inventávamos, aprendíamos, fazíamos amigos.

 

Encontrei um colega de faculdade, depois de alguns anos, um bem-sucedido produtor cultural, que me disse: “Eu trabalho tanto, que não tenho tempo de gastar o que ganho”. Ah, mas tem o final de semana! Não para esse meu amigo. Não para muitos trabalhadores, principalmente nas grandes capitais. E quando felizmente temos aqueles dois preciosos dias estamos tão cansados que só queremos ficar prostrados no sofá da sala, enquanto as crianças (olha elas aí outra vez) nos “perturbam” para que as levemos a passear.

 

Para os que não têm filhos, a situação é um pouco diferente, mas não menos frustrante. Tenho um amigo médico que faz jornada tripla. Um emprego durante o dia, um à noite e os plantões nos fins-de-semana. Provavelmente, ele precisa dos três para somar uma quantia que o faça sobreviver e conquistar alguns sonhos. Estaria tudo bem se ele não fosse um homem. Como manter um relacionamento afetivo satisfatório nessas condições? Há uma comunidade no Orkut chamada “Não namoro médico”. O principal tópico da sua descrição é a falta de tempo para elas, as namoradas. E se a moça também é da área, aí que complica mesmo. Porque com os dois fazendo plantões não dá pra fazer mais nada. Nem sexo, nem cinema.

 

Não é incomum ouvirmos as celebridades reclamarem da tal “incompatibilidade de agendas”. Mulheres e homens lindos, maravilhosos, famosos e ricos, sozinhos e carentes ou trocando freqüentemente de par. Dá até dó, tadinhos. Dependendo da figura, tenho vontade de mandar passar lá em casa.

 

(calma, não comente ainda, o texto continua abaixo)



Escrito por Cristiana Soares às 21h52
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No outro extremo, existe a turma que acorda sem despertador e nem percebe a diferença entre dia útil e feriado. De duas, uma: ou são aqueles felizardos de carteirinha, os herdeiros, ou são aqueles das estatísticas, os desempregados. Os sem-oportunidades-de-trabalho, melhor dizendo. O tempo todo ali, à disposição para a felicidade. Mas felicidade sem um mínimo de dim-dim não dá! Tem também uma categoria que ainda não consegui entender. Quando morei em Florianópolis, vivia em um bairro chamado Lagoa da Conceição, onde havia vários camaradas planando na vida. Vulgarmente conhecidos como bichos-grilo. Até que pareciam felizes, no meio de tanta natureza. Mas eu não tinha a menor idéia de como sobreviviam. Acho que de prana.

 

Trabalhadores do meu Brasil, a boa notícia é que podemos ter nossas vidas de volta! A má é que para isso será preciso uma revolução. Não, não. Nada de piquete, nem ida às ruas. Isso está fora de moda. Podemos começar de um jeito mais delicado. E até silencioso. Por exemplo, parando de mitificar o trabalho e o status que ele tem hoje na nossa cultura (aqui vão de carona o sucesso e a fama). Não é o trabalho que faz o homem. É o homem que faz o trabalho. O senso comum diz que o trabalho dignifica o homem. Mas outras coisas também dignificam.

 

Passei por uma experiência recentemente que me deixou estupefata. Uma amiga foi me apresentar a uma roda social e uma das mulheres perguntou a ela, como se eu não estivesse presente: “Cristiana de onde?” Querendo minha credencial empresarial para saber “quem eu era”. Eu sou eu, ora bolas. Antes de ter uma profissão. Antes de estar trabalhando para alguma organização. Aí eu simpatizo com os baianos quando dizem: “Fulana, filha de Beltrana”. Prefiro ser reconhecida por um laço familiar ou afetivo do que só existir se tiver um crachá.

 

Uma vez desmitificada a relação homem-trabalho, vem a parte mais difícil. Mudar o mundo. Essa exige uma certa dose de organização. No livro “Reengenharia do Tempo”, a socióloga Rosiska Darcy de Oliveira propõe medidas práticas como a alteração dos horários da administração e dos serviços públicos, das escolas, diminuição ou remodelagem do tempo de trabalho nas empresas e mudanças nos espaços do trabalho. Seria uma espécie de relógio social que harmonizasse horas de trabalho com o tempo pessoal. Pois façam um favor a si mesmos e à sociedade: leiam esse livro. Editora Rocco. Depois a gente conversa.

 

No meu caso, tenho conseguido driblar esse problema. Quando minhas filhas eram pequenininhas, morávamos em cidades menores, num mercado de trabalho menos competitivo. Foi possível educá-las e vê-las crescerem a cada centímetro (conheço de cor todas as suas pintinhas). Mesmo trabalhando, eu podia almoçar em casa todos os dias, levá-las pessoalmente à escola e provê-las de outras necessidades infantis de cultura e lazer. Hoje, pré-adolescentes, já as tenho encaminhadas. Desde que cheguei em São Paulo, ainda não trabalhei formalmente, assim pude tirar a barriga da miséria cultural, fazer cursos, passeios e curtir os amigos. Porém, como a revolução das horas ainda não aconteceu e preciso pagar minhas contas, estou vendendo meu tempo. Quer comprar?

 

 

 

 



Escrito por Cristiana Soares às 21h49
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